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The Father

Texto EIVADO de spoilers. Leia por sua conta e risco.


Há alguns anos teve um restaurante com uma proposta bem interessante: jantar às cegas. O cliente era vedado na entrada e tinha a experiência de ser cego, guiando-se apenas por cheiros, paladares e pelas mãos dos monitores que o conduzia pelo salão.


The Father leva esse conceito à enésima potência. Calcado numa habilidade rara, o roteirista faz você não apenas ver um filme sobre, mas ter a experiência do alzaimer. E é assustador. E envolvente. E impactante. E reflexivo. E exigente. E empatizante. E magnífico. Mesmo sabendo qual é o tema do filme (que é baseado numa peça), você é pego completamente de surpresa quando, desde um primeiro momento que a coisa vira, você entende que É VOCÊ quem vai ter alzaimer naquelas próximas duas horas. Você vai ser conduzido por um roteirista-monitor que vai fazer você ver e sentir vividamente o que se passa na cabeça de quem é acometido por essa doença tão maldosa. Como o filme não é um filme, mas uma experiência, a bem da verdade o protagonista não é o pai, nem a filha, mas você. É você quem é jogado numa aventura e não porque você está passivamente vendo que um velho não reconhece o genro (que você também não conhecia), a sua aventura começa no exato instante em que a filha volta com o frango e você percebe onde você (não) está.


O ingrediente básico daquela loucura é a incerteza. É isso o que degrada todos as suas guias, porque desde esse (cedo) momento, você não tem mais certeza de a quem pertence o apartamento, ou quem é a filha, ou quem foi que morreu, ou se alguém morreu mesmo, ou se tinha ou não um quadro na parede, ou quem é o invasor de qual apartamento, ou onde está o relógio, ou se a ideia da filha ir a Paris foi inventada ou dita ou mudada ou recusada. Ou ao menos se há mesmo uma filha ou se houver, se ela é casada ou se vai casar ou se já casou.

Nessa experiência que o filme nos joga, você descobre muitas coisas, mas talvez a principal seja essa: o que nos guia, os nossos corrimãos são as nossas certezas. Sem elas não somos capazes de viver, ou de organizar nossa vida, sem elas nossa existência vira uma equação insolúvel, onde só existem variáveis, sem nenhuma constante. Percebe-se então, que a ausência de certezas é mais perversa e corrosiva do que a falta de luz, de som, de movimento ou até de consciência. Quando a certeza se fragiliza ao ponto da ruptura, é como se você fosse jogado num planeta sem gravidade, sem rotação a lhe regrar o tempo, sem horizonte, sem referências visuais. Um planeta sem sul, nem norte.


Em dado momento, você vê uma cena de violência contra um idoso. Você tem a vontade natural de pular no pescoço do assediador, mas se segura na cadeira, porque não tem um avalista que assegure que aquilo de fato aconteceu. Porque nada do que você está vendo você tem certeza. E quando o assédio se repete, agora perpetrado de forma idêntica, mas por outro personagem – ou pelo mesmo personagem, mas com outras feições – você entra num labirinto de dois corredores: se está acontecendo duas vezes, é porque deve ter acontecido mesmo. Mas se você não tem como ter certeza nem ao menos que qualquer um dos dois abusadores realmente existe, no pescoço de quem você pula?


E mesmo assim, mesmo com você estando cego pelas incertezas, a mensagem que passa é clara e de gosto amargo: certamente existem cegos de coração que agem daquela maneira contra um velho naufragado em sua demência. Mas como o velho vai ter certeza que aquele assédio de fato aconteceu, ou se aquilo é só mais uma marca na parede de um quadro que nunca existiu? Como quem vive próximo e protege o velho vai ignorar um pedido de ajuda, mas, por outro lado, baseado no que vai poder saber se um relato de abuso deve ser levado a sério, sabendo que aquilo pode ter vindo da cabeça de alguém que vive num planeta sem rotação, e sem norte?


O filme nos exige o tempo todo e de maneira quase tão perversa quanto o alzaimer exige e subjuga seus portadores. A nossa sorte é que, pra nós, aquela perturbação acaba. Se naquelas duas horas “a certeza” é um bem que nos foi tomado, outros dois eixos que conduzem nossas vidas são apresentados como elementos voláteis: o tempo e o espaço. Na verdade, o autor corrói a certeza exatamente por gasificar esses outros dois elementos. São duas informações que você simplesmente não tem o filme todo: onde você está e quando você está.

E nessa questão do tempo este roteirista teve a manha – ou teve a petulância, ou o arrobo, ou a valentia, ou a competência extremada – de criar um “Escher-cênico”. Os quadros do Escher já são hipnóticos e perturbadores parados. Imagine andando! Imagine andando dentro da sua cabeça! Imagine andando dentro da sua cabeça com você sabendo que um dia sua cabeça pode ter aquele andamento de um quadro do Escher!


Isso acontece algumas vezes no filme (ou na verdade na trama toda). Mas destaco especialmente uma cena em que o Pai flagra uma conversa da filha (sei lá) com o marido (sei lá) que começa com ele ouvindo o debate do casal sobre a possibilidade de interná-lo e depois a cena se desenvolve a partir desse ponto, e eles falando sobre isso durante o jantar, para depois a gente chegar de volta naquela cena que aconteceu antes (?), com o Pai flagrando a conversa, mas que aconteceu por causa do jantar que eles tiveram depois que o Pai os flagrou. (Se você achou confusa essa minha descrição, tente descrever pra alguém que nunca viu aquele quadro do Escher com o aqueduto e as torres, que tem a água que sobe, mas que desce. São desafios idênticos.)


Enfim, eu sei reconhecer uma referência quando uma nova aparece. The Father é uma nova referência, é uma quebra de paradigma, é alguma coisa para quem escreve “ter certeza” que sempre dá pra ir muito além. É um norte.


Depois do filme, eu e a minha mulher fizemos uma piada, mas que acaba sendo o melhor resumo do filme. Que é você perguntar para alguém: “E aí, o que você achou do filme?” e a pessoa responder: “achei legal, mas achei um pouco confuso”.


Quem disser isso desse filme terá acertado em cheio.




Ah, sim!! Mais uma coisa bem importante do filme: ele acaba com uma farsa. Ele confirma em definitivo uma coisa que eu já desconfiava há décadas, desde Remains of the Day ou Silence of the Lambs: Anthony Hopkins não é humano. Ele não é feito de carne, osso, sangue e neurônios como eu e você, ele é feito de outro material, que não nos é dado saber qual. Ele nos imita muito bem. Mas ele não é um de nós.


E sim, a Rainha também arrasa (mas nos limites da humanidade).


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